A Condição do Professor


O professor, um profissional tão necessário para o crescimento de qualquer nação democrática e consciente, é no Brasil subestimado e desvalorizado. Cria-se na vida nacional uma cultura de serviço, donde o professor tem que abandonar toda a técnica e metodologia pedagógica e científica, muitas vezes, em função do pensamento individualista e prepotente de pais e estudantes ou de valores impostos pela parte administrativa da escola e do governo.

A renda média do brasileiro é de R$ 2.154,00 [IBGE-2018], entretanto o professor brasileiro – que trabalha com ensino infantil, fundamental e médio - tem uma renda média, desatualizada, de R$ 3.500,00 [INEP-2014], sendo que alguns, em longíssima carreira e carga horária abusivas – infelizmente – passam bem acima da média nacional. Outrossim não paramos de escutar frases como “ser professor não dá futuro”, “professor no Brasil ganha pouco” e “professor no Brasil não é valorizado”. Terei de discordar com a primeira frase, concordar parcialmente com a segunda, já que o professor não chega a receber mínima parte para considerarmos que todo seu esforço foi recompensado de maneira a garantir uma estabilidade financeira e uma vida segura, e concordo com a última frase totalmente, porém adiciono uma ressalva: o professor foi desvalorizado, mas não apenas pelas instituições do Estado, mas também pela população, que tendo os costumes e falas impressos em sua rotina contribuem para isso. 

A população leva em seu preconceito, certamente reproduzido por uma questão de alienação, a marca discursiva que desvaloriza o professor, que tão arduamente trabalha para conquistar a sua dignidade perante essa cultura de valores deturpados. Por pior, acrescento, mas esperado, adiciono, a maior parte deste preconceito é reproduzido pela chamada “classe-média” e pelos profissionais liberais, que sempre creem de que possuem críticas estruturadas e concretas, mas que em maioria, não passam de opiniões ‘líquidas’ e precoces. 

“O Estado é forte quando as massas são conscientes” afirmou Lênin uma vez. Fazendo valer de que a Educação é fundamental para o Estado. “Só existirá democracia no Brasil no dia em que se montar no país a máquina que prepara as democracias. Essa máquina é a da escola pública” nos disse Anísio Teixeira. O que nos leva a questão de que o futuro do trabalhador educacional e da Educação DEVE estar atrelado a máquina pública, levando-nos cada vez mais perto do verdadeiro governo do povo. 

Esse profissional, a quem venho me referindo até então, é não só fundamental para qualquer nação como também deve ser o mais importante para a vida de todo trabalhador, já que apenas a Educação pode nos libertar da condição alienante que a mídia de poucos, o patrão de muitos e o Estado de apenas uma classe rica e mesquinha nos prende. 

Enquanto o cidadão pobre não tem acesso ao material que lhe faz direito, enquanto o professor não tem a condição de trabalho que lhe faz direito, enquanto o Estado não receber a justiça que lhe faz direito, os trabalhadores de todos setores não podem apenas ignorar esta negligência, devem questionar toda e qualquer mesquinharia e austeridade do Estado e país dos ricos e reivindicar para o povo o que é dele por direito. 

Aqui deixo meu mais sincero agradecimento a todos professores e professoras que trabalham incansavelmente criando um futuro melhor para todos nós. Não obstante, deixo também meu mais profundo desprezo pelas pessoas que no poder pela família, política ou, mais diabólico, pelo capital. Que os professores sirvam de guias para a nossa nação em momentos tão incertos e que toda justiça que deve ser feita ocorra pela mão do povo. 




Em entrevista com o professor André Henriques F. Oliveira, cuja qual não mencionarei as escolas em que leciona por respeito às mesmas, questionei-o sobre alguns aspectos da educação e do professor em cenário nacional: 


O que é ser professor no Brasil? 

“Falar sobre o que É ser professor no Brasil é complicado, criar um quadro nacional é generalizante [...] a variação nacional é muito grande, criando cenas muito diferentes umas das outras, temos os valores escolares e a desigualdade influenciando nessas diferenças. [...] Pegue um professor da escola pública periférica, que tem a questão do acesso ao espaço, muitas vezes mesmo pertencendo à região tem difícil acesso às escolas, que costumam ficar na parte mais altas da periferia, quando não tem que se pegar ônibus tem que se subir ladeira. [...] Os professores da rede pública são submetidos a apresentar números e estatísticas e tem sua atividade burocratizada, dificultando muito o seu trabalho, tendo apenas que se preocupar em dar satisfação aos superiores e não com a evolução de seu trabalho. No caso do ensino médio técnico temos uma abundância de alunos de “classe média” que preocupados apenas com a postura, pelo conteúdo, não conseguem formar novas relações sociais.” 


Qual é a maneira de que o professor é explorado?

 “No setor privado ele é explorado pela mais-valia mesmo, os meios de produção de uma escola não são muitos, além do próprio prédio; mas se precisa de capital. A gente até pode dizer que alguns professores ganham bem, mas as escolas também ganham bem – risos. Até algumas que se ocupam com filantropia, garantindo bolsas, selecionam os professores, um estudante que paga não recebe a mesma formação que um bolsista [...]. Em geral o lucro da escola privada vai para os diretores ou para o instituto. Agora na área pública existe uma coisa esquizofrênica, não há mais-valia, mas mantem uma lógica empresarial, se tem uma imagem do aluno como cliente e isso quebra com a noção de pertencimento da escola pública. O ensino fica baseado em uma noção de consumo e resultados. [...] Alunos inclusive que chantageiam os professores pois sabem que eles têm de apresentar estatísticas, ficam barganhando com o emprego deles. O professor é de explorado pela burocracia e pela estatística, sendo levado a um abandono ético [...].” 


Quais são os maiores “crimes” da nossa sociedade para com a educação?

 “Tratar tudo como mercadoria, é difícil estabelecer relações éticas boas quando isso acontece. Que relação está sendo estabelecida? O aluno vai ditar? Como formar uma instituição? [...] Ainda que a educação formal não é toda a educação. A lógica empresarial fica presa nisso, até mesmo dentro das famílias, que ficam analisando custos, gastos e cortes, não há importância nas relações [...] se trata tudo como meta. [...] tudo vai ficando muito quantitativo, se prendem ao nome da escola e isso não forma por si um bom profissional. A lógica do consumo, do cliente, na educação seria o maior crime.” 


Como você vê a relação do professor com o povo? E com a burguesia? 

“Com o povo se trata de uma relação de consumo e serviço mesmo [...], mas essa demanda entra em conflito com a falta de estrutura das escolas que estão submissas à força da estatística, se deixa os princípios escolares. Já a burguesia tem uma relação de exploração e de mantenedores da sua posição social. Os professores são formados voltados para a questão científica, que é dominada pela classe média. A elite que explora é uma elite financeira rentista, que não explora pela mais-valia, mas pelo capital financeiro. A classe média segue como possuidora do capital intelectual, e professores que não se destacam com a classe média dão aula para a classe baixa. Mas a elite financeira tem um domínio sobre a classe média que tem um domínio sobre a classe baixa.” 


Quais passos devem ser tomados para que se melhore a educação no país? 

“A solução é a extinção da escola privada, [...] claramente que a mudança não se daria do dia para a noite, mas haveria uma modificação da escola como produto. [...] aqui uso Jessé de Souza quando ele diz que a classe média não é reacionária por si só. Ser da classe média é um estilo de vida que é reproduzido pela convivência familiar, reproduzir o capital intelectual é algo comum, e ao chegar na escola, já que nossa sociedade tem uma mentalidade meritocrática, faz com que os professores deem mais atenção aos alunos que já tem esta cultura familiar, o que acaba centralizando o capital intelectual. Acabar com a escola particular distribui o capital intelectual, já que na escola pública teria alunos de todas as classes. Também se acabaria com a questão do professor que dá aula para a classe média e a baixa, já que a escola pública englobaria todos, não se teria mais a visão de cliente do aluno e assim as relações e valores iriam prevalecer. Para mim tanto a área da educação quanto da saúde deveriam ser estatais [...].
Essa mudança traria novos problemas, mas a própria formação do professor já não seria voltada para a lógica empresarial, as estatísticas não vão ter tanta força, os concursos públicos garantiriam uma estabilidade profissional para os professores. Deve se buscar com essa mudança um professor comunitário, que trabalhe apenas em uma escola e faça parte daquela comunidade, não tendo que trabalhar em até três escolas diferentes, e sim uma só.” 

Escrito por André Molinari
maio de 2018 

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