A Concepção Marxista-leninista da Ciência

      A concepção marxista da ciência e, consequentemente, do mundo, é embasada no materialismo dialético, que também se apresenta como materialismo filosófico e materialismo histórico dialético, sendo esse último uma aplicação do materialismo dialético no estudo dos processos históricos enquanto ciência. Para isso, nessa parte é necessário a elucidação sobre o que consiste o materialismo dialético e propriamente a noção marxista de ciência.
“O materialismo dialético é a concepção filosófica do Partido marxista-leninista. Chama-se materialismo dialético, porque o seu modo de abordar os fenômenos da natureza, seu método de estudar esses fenômenos e de concebê-los, é dialético, e sua interpretação dos fenômenos da natureza, seu modo de focalizá-los, sua teoria, é materialista. O materialismo histórico é a aplicação dos princípios do materialismo dialético ao estudo da vida social, aos fenômenos da vida da sociedade, ao estudo desta e de sua história.” (DZHUGASHVILI, 2010)
   De acordo com Iosif Vissarionovich ’Stalin’ Dzhugashvili o método dialético marxista se caracteriza pelos seguintes princípios fundamentais:

“a) Em oposição à metafísica, a dialética não considera a natureza como um conglomerado casual de objetos e fenômenos, desligados e isolados uns dos outros e sem nenhuma relação de dependência entre si, mas como um todo articulado e único, no qual os objetos e os fenômenos se acham organicamente vinculados uns aos outros, se interdependem e se condicionam mutuamente. 
Por isso, o método dialético entende que nenhum fenômeno da natureza pode ser compreendido, se focalizado isoladamente, sem conexão com os fenômenos que o cercam, pois todo fenômeno, tomado de qualquer campo da natureza, pode converter-se em um absurdo, se examinado sem conexão com as condições que o cercam, desligado delas; e pelo contrário, todo fenômeno pode ser compreendido e explicado, se examinado em sua conexão indissolúvel com os fenômenos circundantes e condicionado por eles.

b) Em oposição à metafísica, a dialética não considera a natureza como algo quieto e imóvel, parado e imutável, mas como sujeito a perene movimento e a mudança consoante, renovando-se e desenvolvendo-se incessantemente, onde há sempre alguma coisa que nasce e se desenvolve, morre e caduca.
Por isso, o método dialético exige que se examinem os fenômenos, não só do ponto de vista de suas relações mútuas e de seu mútuo condicionamento, mas também do ponto de vista de seu movimento, de suas transformações e de seu desenvolvimento, do ponto de vista de seu nascimento e de sua morte.  
O que interessa, sobretudo, ao método dialético não é o que, em um momento dado, parece estável mas começa já a morrer, senão o que nasce e se desenvolve, ainda que num momento dado pareça pouco estável, pois a única coisa que há de insuperável, a seu ver, é o que se acha em estado de nascimento e de desenvolvimento.” (Ibid.)
 “c) Em oposição à metafísica, a dialética não estuda o processo de desenvolvimento dos fenômenos como um simples processo de crescimento, em que as mudanças quantitativas não se traduzem em mudanças qualitativas, mas como um processo em que se passa das mudanças quantitativas insignificantes e ocultas às mudanças manifestas, às mudanças radicais, às mudanças qualitativas; em que estas se produzem, não de modo gradual, mas repentina e subitamente, em forma de saltos de um estado de coisas para outro, e não de um modo casual, mas de acordo com leis, como resultado da acumulação de uma série de mudanças quantitativas inadvertidas e graduais. 
Por isso, o método dialético entende que os processos de desenvolvimento não se devem conceber como movimentos circulares, como uma simples repetição do caminho já percorrido, mas como movimentos progressivos, como movimentos em linha ascensional, como a transição do velho estado qualitativo a um novo estado qualitativo, como a evolução do simples para o complexo, do inferior para o superior.” (Ibid.)
“d) Em oposição à metafísica, a dialética parte do critério de que os objetos e os fenômenos da natureza levam sempre implícitas, contradições internas, pois, todos eles têm seu lado positivo e o seu lado negativo, seu passado e seu futuro, seu lado de caducidade e seu lado de desenvolvimento; do critério de que a luta entre esses lados contrapostos, a luta entre o velho e o novo, entre o que agoniza e o que nasce, entre o que caduca e o que se desenvolve, forma o conteúdo interno do processo de desenvolvimento, o conteúdo interno da transformação das mudanças quantitativas em mudanças qualitativas. 
Por isso, o método dialético entende que o processo de desenvolvimento do inferior para o superior não decorre como um processo de desenvolvimento harmônico dos fenômenos, mas pondo sempre em evidência as contradições inerentes aos objetos e aos fenômenos, num processo de “luta” entre as tendências contrapostas que atuam sobre a base daquelas contradições.” (Ibid.)
      Adiante o autor aborda os princípios fundamentais do materialismo filosófico marxista:
 “a) Em oposição ao idealismo, que considera o mundo como a materialização da “ideia absoluta”, do “espírito universal”, da “consciência”, o materialismo filosófico de Marx parte do critério de que o mundo é, por sua natureza, algo material; de que os múltiplos e variados fenômenos do mundo constituem diversas formas e modalidades da matéria em movimento; de que os vínculos mútuos e as relações de interdependência entre os fenômenos que o método dialético põe em evidência são as leis, de acordo com as quais se desenvolve a matéria em movimento; de que o mundo se desenvolve de acordo com as leis que regem o movimento da matéria sem necessidade de nenhum “espírito universal”.” (Ibid.)
 “A concepção materialista do mundo — diz Engels — se limita simplesmente a conceber a natureza tal como é, sem nenhuma espécie de acréscimos estranhos“ (DZHUGASHVILI, 2010 apud ENGELS. )
“b) Em oposição ao idealismo, que afirma que só a nossa consciência tem uma existência real e que o mundo material o ser, a natureza, só existem em nossa consciência, em nossas sensações, em nossas percepções, em nossas ideias, o materialismo, filosófico marxista parte do critério de que a matéria, a natureza, o ser, são uma realidade objetiva, existem fora de nossa consciência e independentemente dela; de que a matéria é o primário, uma vez que constitui a fonte da qual se derivam as sensações, as percepções e a consciência, e essa o secundário, o derivado, uma vez que é a imagem refletida da matéria, a imagem refletida do ser; parte do critério de que o pensamento é um produto da matéria ao atingir um alto grau de perfeição em seu desenvolvimento, e mais concretamente, um produto do cérebro, e este o órgão do pensamento, e de que, portanto, não cabe, a menos que se ceda num erro crasso, separar o pensamento da matéria.” (DZHUGASHVILI, 2010)
 “c) Em oposição ao idealismo, que discute a possibilidade de conhecer o mundo e as leis que o regem, que não crê na veracidade de nossos conhecimentos, que não reconhece a verdade objetiva e entende que o mundo está cheio de “coisas em si” que jamais poderão ser conhecias pela ciência, o materialismo filosófico marxista parte da princípio de que o mundo e as leis que o regem são perfeitamente cognoscíveis, de que os nossos conhecimentos acerca das leis da natureza, comprovados pela experiência, pela prática, são conhecimentos verídicos que têm o valor de verdades objetivas, de que no mundo não há coisas incognoscíveis, mas simplesmente coisas ainda não conhecidas, que a ciência e a experiência se encarregarão de revelar e dar a conhecer.” (Ibid.)
     Assim podemos ver a construção do que é o materialismo dialético marxista, como visão científica que analisa a realidade como constituída por relações, processos, mudanças e contradições (dialética); primazia do que é material, realidade objetiva, compreensão da ciência por meio de leis e de uma verdade objetiva (materialismo).

“[. . . ] A ciência burguesa é partidarista de cabo à rabo e só serve aos interesses da burguesia, porém, para poder servir-lhe de instrumento de opressão da maioria pela minoria, essa ciência vê-se obrigada a ocultar seu caráter partidarista sob a máscara do “objetivismo”, da “pureza” da ciência; por isso só a teoria marxista-leninista é na atualidade verdadeiramente objetiva; o partidarismo proletário coincide com a objetividade real.” (SHCHEGLOV, 1945) 
 “A “essência” das coisas ou a “substancia” também são relativas; apenas significam o conhecimento aprofundado que o homem tem dos objetos, e, se esse conhecimento não ia, ontem, além do átomo e não ultrapassa, hoje, o eléctron ou o éter, o materialismo dialético insiste no caráter transitório, relativo aproximado, de todos esses limites do crescente conhecimento da natureza, por parte da ciência humana. O eléctron é tão inesgotável quanto o átomo, a natureza é infinita e existe infinitamente; e somente esse reconhecimento absoluto, categórico, da sua existência fora da consciência e das sensações humanas é que distingue o materialismo dialético do agnosticismo e do idealismo relativistas.” (Ibid.)
 “[...] A dialética, como ciência, reflete a dialética objetiva da natureza e da sociedade; por isso, na medida em que se desenvolvem essas últimas e se aprofundam nossos conhecimentos sobre elas, tem de desenvolver-se também a própria dialética.” (Ibid.)
“O emprego dos agentes naturais – em certa medida, sua incorporação ao capital – coincide com o desenvolvimento da ciência como fator autônomo do processo produtivo. Se o processo produtivo se converte na esfera de aplicação da ciência; a ciência, pelo contrário, se converte em fator, em função, por assim dizer, do processo produtivo. Cada descoberta se converte na base de novas invenções ou de um novo aperfeiçoamento dos modos de produção. O modo capitalista de produção é o primeiro a colocar as ciências naturais a serviço direto do processo de produção, quando o desenvolvimento da produção proporciona, diferentemente, os instrumentos para a conquista teórica da natureza. A ciência logra o reconhecimento de ser um meio para produzir riqueza, um meio de enriquecimento.” (MARX, 1980) (Grifo do Marx)
“O capital não cria a ciência e sim a explora apropriando-se dela no processo produtivo. Com isto se produz, simultaneamente, a separação entre a ciência, enquanto ciência aplicada à produção e o trabalho direto, enquanto nas fases anteriores da produção a experiência e o intercâmbio limitado de conhecimentos estavam ligados diretamente ao próprio trabalho; não se desenvolviam tais conhecimentos como força separada e independente da produção e, portanto, não haviam chegado nunca em conjunto além dos limites da tradicional coleção de receitas que existiam desde há muito tempo e que só se desenvolviam muito lenta e gradualmente (estudo empírico de cada um dos artesanatos). O braço e a mente não estavam separados.” (Ibid.)
“Somente a produção capitalista transforma o processo produtivo material em aplicação da ciência à produção — em ciência, posta em prática, mas somente submetendo o trabalho ao capital e reprimindo o próprio desenvolvimento intelectual e profissional...” (Ibid.) 
“A emancipação dos indivíduos, sua libertação das condições opressoras só poderia se dar quando tal emancipação alcançasse todos os níveis, e, entre eles, o da consciência. Somente a educação, a ciência e a extensão do conhecimento, o desenvolvimento da razão, pode conseguir tal objetivo.” (MARX; ENGELS, 2011)
“[...] somente a classe operária pode emancipar-se das tiranias dos padres, fazer da ciência um instrumento não de dominação de classe, mas sim uma força popular; fazer dos próprios cientistas não alcoviteiros dos prejuízos de classe parasitas do Estado à espera de bons lugares e aliados do capital, mas sim agentes livres do espírito. A ciência só pode jogar seu verdadeiro papel na República do Trabalho.” (Ibid.)
    Que se faz claro então, o materialismo dialético como concepção científica e qual teu papel intrínseco na sociedade e no processo histórico estabelecido pelas forças dialéticas na materialidade do mundo e sua realidade objetiva. Mantendo o afirmado pouco atrás como elementos vitais do materialismo dialético, agora soma-se à concepção de ciência através do marxismo-leninismo como instrumento de libertação da classe trabalhadora e fomentadora do desenvolvimento humano sobre a realidade objetiva apresentada. 


Escrito por André Molinari
junho de 2019

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 Referências

DZHUGASHVILI, I. V. O Materialismo dialético e o Materialismo Histórico. Recife: Edições Manoel Lisboa, 2010. 33 p. 

ENGELS, F. Ludwig Feuerbach. In: EUROPA-AMÉRICA (ed.). Karl Marx: Obras escolhidas. [S.l.]: Europa-América. p. p. 413 –.

MARX, K. Capital e Tecnologia. 1980. Disponível em:<https://www.marxists.org/portugues/marx/1863/mes/tecnologia.htm>. Acesso em: 29/05/2019.

MARX, K.; ENGELS, F. Textos sobre Educação e Ensino. Campinas: Navegando, 2011. 143 p. Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/marx/ano/mes/ensino.pdf. Acesso em: 29/05/2019.

SHCHEGLOV, A. V. (coord.). História da Filosofia. Rio de Janeiro: Editorial Vitória Ltda., 1945.



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