Quem São os “Simpatizantes da Revolução” e como atua o Oportunismo - Parte I
Hoje vemos em diversos casos, eu próprio poderia dar
milhares de exemplos pessoais, pessoas que se dizem “simpatizantes de uma
revolução socialista”, “comunistas”, e “socialistas” mas ainda assim se postam
de maneira incrédula, não só em suas práticas políticas e sociais cotidianas
como por igual na descrença da possibilidade
de que se ocorra uma revolução socialista no Brasil. (Em que se baseia um
comunista ou socialista que não acredita na possibilidade de uma revolução? Devaneios?!)
Ora, a isso pode-se atribuir ou uma
ignorância – à qual não coloco aqui de maneira pejorativa - mediante a teoria
marxista-leninista ou ao mais puro, seco e velho oportunismo discursivo e
prático.
Em primeiro lugar, a falta de
compreensão adequada sobre em que consiste a noção dos comunistas
marxista-leninistas, ou socialistas científicos, do mundo e da realidade. Sendo
que esse entendimento se dá através do materialismo dialético que detém os
seguintes fundamentos de análise da realidade: as relações apresentadas, os processos
construídos e em construção, as mudanças e as contradições (dialética); a primazia
do material, a noção de uma realidade objetiva, compreensão da ciência por meio
de leis e de uma verdade objetiva (materialismo).
Aqui é necessário compreender estritamente o que é Revolução quanto processo de transformação
qualitativa da realidade. Aqui, buscamos um fragmento do artigo escrito por
Stálin, “Materialismo Dialético e Materialismo Histórico”:
“[...] a dialética não estuda o processo de desenvolvimento dos fenômenos como um simples processo de crescimento, em que as mudanças quantitativas não se traduzem em mudanças qualitativas, mas como um processo em que se passa das mudanças quantitativas insignificantes e ocultas às mudanças manifestas, às mudanças radicais, às mudanças qualitativas; em que estas se produzem, não de modo gradual, mas repentina e subitamente, em forma de saltos de um estado de coisas para outro, e não de um modo casual, mas de acordo com leis, como resultado da acumulação de uma série de mudanças quantitativas inadvertidas e graduais.
Por isso, o método dialético entende que os processos de desenvolvimento não se devem conceber como movimentos circulares, como uma simples repetição do caminho já percorrido, mas como movimentos progressivos, como movimentos em linha ascensional, como a transição do velho estado qualitativo a um novo estado qualitativo, como a evolução do simples para o complexo, do inferior para o superior” (DZHUGASHVILI, 2010)
"A natureza — diz Engels — é a pedra de toque da dialética, e as modernas ciências naturais nos proporcionam como prova disso um acervo de dados extraordinariamente copiosos, enriquecido cada dia que passa, demonstrando com isso que a natureza se move, em última instância, pelos canais dialéticos e não pelos trilhos metafísicos, que não se move na eterna monotonia de um ciclo constantemente repetido, mas percorre uma verdadeira história. Aqui é necessário citar, em primeiro lugar, Darwin, que, com sua prova de que toda a natureza orgânica existente — plantas e animais, e entre esses, é lógico, o homem — é o produto de um processo evolutivo de milhões de anos, assestou na concepção metafísica da natureza o mais rude golpe". (ENGELS apud DZHUGASHVILI, 2010)
“Caracterizando o desenvolvimento dialético como a transição das mudanças quantitativas para as mudanças qualitativas, diz Engels:” (DZHUGASHVILI, 2010)
"Assim também, para que o fio de platina da lâmpada elétrica se acenda, é necessário um mínimo de corrente; todo metal tem seu grau térmico de fusão, e todo líquido, dentro de uma determinada pressão, tem seu ponto determinado de congelação e de ebulição, na medida em que os meios de que dispomos nos permitem produzir a temperatura necessária; e, finalmente, todo gás tem seu ponto crítico, no qual, sob uma pressão e esfriamento adequados, se liquefaz em forma de gotas... As chamadas constantes da física (os pontos de transição de um estado para outro — N. do A.) não são, na maior parte das vezes, senão os nomes dos pontos nodais em que a soma ou a subtração quantitativas (mudanças quantitativas) de movimento provocam mudanças qualitativas no estado do corpo em questão, no qual, portanto, a quantidade se transforma em qualidade." (ENGELS apud DZHUGASHVILI, 2010)
“E mais adiante, passando à química, Engels prossegue:” (DZHUGASHVILI, 2010)
“Por último, criticando Dühring, que cumula Hegel de injúrias — sem prejuízo de tomar dele, sorrateiramente, a conhecida tese de que a transição do reino do insensível ao reino das sensações, do mundo inorgânico para o mundo da vida orgânica, representa um salto para um novo estado — Engels disse:” (DZHUGASHVILI, 2010)
"É, certamente, a linha nodal hegeliana das porções de medida na qual o simples aumento ou a simples diminuição quantitativa determinam, ao chegar a um determinado ponto nodal, um salto qualitativo, como ocorre, por exemplo, com a água posto a aquecer ou a esfriar, onde o ponto de ebulição e o ponto de congelação são os nódulos em que — sob uma pressão normal — se produz o salto para um novo estado de coesão, isto é, em que a quantidade se transforma em qualidade." (ENGELS apud DZHUGASHVILI, 2010)
"Poderíamos dizer que a química é a ciência das mudanças qualitativas dos corpos por efeito das modificações operadas em sua composição quantitativa. E disso o próprio Hegel já sabia... Basta fixar-se no oxigênio: se combinarmos, para formar uma molécula, três átomos em vez de dois, que é o comum, produziremos o ozônio, corpo que se distingue de um modo muito definido do oxigênio normal, tanto pelo odor como pelos efeitos. E não falemos das diversas proporções em que o oxigênio se combina com o nitrogênio ou com o enxofre, e cada uma das quais produz um corpo qualitativamente diverso de todos os demais." (ENGELS apud DZHUGASHVILI, 2010)
O
que desejo que fique ressaltado nessa parte é de que a revolução é um evento ordinário da realidade e que se projeta como
processo de transformação no acúmulo de contradições dialéticas da
materialidade. E dessa mesma maneira, conceitualmente, se aplica-se os
elementos primevos do materialismo dialético e do que é revolução no
materialismo histórico dialético, onde como a água muda de líquido para sólido,
o processo histórico da sociedade sofre mudanças qualitativas inevitáveis.
O materialismo histórico dialético
se apresenta como “[..] a aplicação dos princípios do materialismo filosófico
ao estudo da vida social, ao estudo da história da sociedade [...]” (DZHUGASHVILI,
2010) de maneira a aplicar a noção marxista ao estudo da história e sociedade e
transposição embasada da teoria à prática.
Por
fim, aqueles que alegam ser “comunistas” de uma ocasional revolução socialista,
porém não possuem em si a prática revolucionária estão mais próximos ao
menchevismo. Nós comunistas temos a obrigação de combater essa desvirtuação
pregada sobre a classe trabalhadora, impedindo que o oportunismo, revisionismo
e reformismo adentre as fileiras do partido da vanguarda e das fileiras do
proletariado. Ao mesmo tempo temos que nos dedicar
intensamente aos trabalhos de propaganda e agitação para com aqueles que
simplesmente não compreendem a necessidade de uma ruptura, no que consiste o
sistema capitalista e porque o materialismo dialético é a mais valiosa
ferramenta do proletariado. Em
primeiro expondo à classe trabalhadora o que é o marxismo-leninismo, quais são
as nossas concepções e leituras da realidade atual e processual do capitalismo;
em segundo, dando orientações, organização, sentido e direção ao povo revoltado,
ou seja, através da agitação ligar a teoria à prática.
Diga-se de passagem, que nada disso
é capaz sem a própria formação dos militantes revolucionários, prática e teórica.
Como formulado por Lenin:
“[...] Em primeiro plano coloca-se necessariamente o trabalho prático de propaganda e agitação, visto que o trabalho teórico apenas dá respostas às aspirações do prático, em primeiro lugar. [...]” (ULYANOV, 1984) (Grifo meu)
* * *
A
revolução socialista é, como tudo que permeia a realidade material, um processo
em construção, assim deve ser vista e trabalhada. Jamais, nunca, se deve vê-la
como um evento factual distante da realidade, se assim o fosse não
precisaríamos ler Marx e poderíamos ficar com os textos do Thomas More.
Aqueles que pregam que a revolução é
impossível, distante ou utópica, não passam de parlapatões politiqueiros que
desejam conciliar às massas a ideia de que o sistema capitalista é o que temos
por hora e que devemos nos contentar com isso ou que já tem isso
paradigmaticamente preso em sua mentalidade. Aqueles que se “simpatizam” mas
não se empenham em construí-la diariamente, por determinados motivos, sejam
eles o individualismo, o revisionismo, a ignorância e a falta de consciência de
classe, devem ser alvos dos nossos trabalhos de base como comunistas, converter
os simpatizantes em revolucionários é não apenas uma tarefa imediata como vital
para a consolidação da vanguarda revolucionária brasileira.
Tendo em conta de que a cada dia que
passa as contradições de classe e do sistema se agravam, temos de construir uma
vanguarda forte e preparada. Não podemos observar a crise atual do capitalismo
como mais uma de suas crises cíclicas, de maneira objetiva o que se mostra é de
que é uma crise dos pilares do sistema, que se já era caduco às portas de 1848
quando se lança o Manifesto Comunista e em 1917 quando, 69 anos depois, se
consolida o primeiro estado socialista.
Se sistema capitalista foi em seu início um rio jovem,
que cortava vales, cavava rochas e retirava sedimentos, no início do século XX
já era um rio senil, com curvas, depositando sedimentos, ou melhor,
contradições, sobre a planície em que reside o proletariado. Hoje, em fim da 2ª
década do século XXI, o capitalismo não passa de um rio quase seco, uma
paisagem árida.
Mas não devemos nos fazer como resolvidos por isso,
não tenhamos dúvidas, camaradas, a burguesia irá, se assim tiver espaço e
condições, fazer a manutenção do sistema (sobre quaisquer meios possíveis), irá
perpetuar-se no poder. O capitalismo tem suas maneiras manutenção, desde sua
própria origem, e se hoje estamos em meados da 4ª Revolução Industrial e do
ascenso do pós-modernismo, só pode-se interpretar, em primeiro, como uma
empreitada burguesa de dispensar a necessidade das amplas massas operárias e
camponesas, e mesmo que se remaneje os trabalhadores para outros setores
econômicos – o que o alto desemprego mostra hoje é de que o 3º setor não é
capaz de absorver toda essa mão-de-obra - se constrói através da
pós-modernidade um projeto de alienação ideológica da população, ou até de
imbecilização (algo que deveria ser exposto como a verdadeira face do
pós-modernismo), que não poderia estar mais distante do materialismo dialético
e da compreensão objetiva da realidade.
Devemos, de maneira objetiva,
organizada, disciplinada e teorizada, avançar sobre as linhas da história e
construir nossa revolução nesse momento tão instável ao sistema capitalista e
donde as mudanças qualitativas do sistema se projetam para uma sociedade com
novas relações econômicas. Se diz, de maneira metafórica, que a pós-modernidade
se assemelha demasiado com a medievalidade. Se assim o for, pode-se dizer que
temos por confirmada empiricamente a
previsão de Marx para a única saída de desenvolvimento frente ao sistema
capitalista. Onde, agora, não havendo o levante de uma classe para derrubar a
burguesia, retrocedemos socialmente e politicamente à uma reinterpretação de um
sistema passado, de maneira cíclica.
A falta de ruptura gera continuidade dos vícios das
classes dominantes, gera um acúmulo absurdo de riquezas nas mãos de um mesmo
minúsculo grupo, gera uma destruição do ambiente tal como necessário para a
sobrevivência do Homem.
É necessária, por atraso declarado, uma revolução socialista
no Brasil. O que devemos fazer nesse momento é direcionar estrategicamente e
objetivamente a construção da revolução por meio de adições quantitativas à fórmula
da revolução, precisamos formar mais revolucionários, levar o marxismo-leninismo
para mais pessoas, sindicatos, bairros, universidades, escolas, postos de
trabalho, etc.
Mas não bastando os problemas gerados pelos ideólogos
burgueses e a reação, que fazem de maneira assumida, ainda temos que lidar com
aqueles que, consciente ou não, reproduzem a ideologia burguesa de maneira
velada.
A socialdemocracia falhou com o povo, uma vez mais. A reação
se projeta sobre o globo tomando os melhores filhos e filhas da classe
trabalhadora para sua trama ideológica muito bem montada. Os pseudo-comunistas
não só não colaboram com a luta revolucionária, como nessa empreitada
oportunista mancham a reputação dos revolucionários e do comunismo mediante à
classe trabalhadora, ora, não bastasse a constante propaganda anticomunista difundida
nos grandes meios de comunicação pela burguesia, ainda temos de lidar com o desserviço dos “camaradas de pau oco”.
Os oportunistas são muitos e os meios de controle e de
reprodução do capital da burguesia tomam hoje proporções assustadoras. A
burguesia ampliou seus recursos materiais, desenvolvendo as capacidades
produtivas da sociedade e se apropriando do trabalho coletivo da classe
trabalhadora. Como bem vi circular esses dias pela internet, e disso digo e
repito, é verdade, “a maior das ilusões políticas
é acreditar que se pode humanizar um
sistema cuja essência é mercantilizar as necessidades humanas”.
E camaradas vos digo, nem o melhor e mais habilidoso weberiano do mundo pode ‘exorcizar’
e ‘purificar’ o capitalismo.
Os processos de mudanças não são incômodos e
assustadores por coincidência, não há
coincidência na realidade social, devemos observar a totalidade dos espaços historicamente construídos e suas relações.
Se educou uma sociedade, naturalmente dotada da revolta de classe, a ser
conciliadora. Hoje a cada dia que se passa adentrando essa crise estrutural do
capitalismo as contradições de classe se agravam, assim cada vez mais a classe
trabalhadora se direciona ao caminho que já é seu, o caminho da luta de
classes.
É preciso levar o desenvolvimento da história à sua
última consequência. É preciso que a classe trabalhadora derrube a classe burguesa.
Não há esperanças para os trabalhadores em nenhuma outra resposta que não a revolução.
Quais foram os produtos concretos, duráveis e crescentes do reformismo para com
a classe trabalhadora? A socialdemocracia novamente recua pacificamente, tal
como se convidasse um amigo para que entre em casa, mediante à ofensiva da
reação. Não há respostas para o proletariado vinda dos gabinetes do reformismo.
Mas o reformismo, dos oportunismos é apenas um, precisamos
compreender no que consiste o oportunismo no Brasil, saber como combatê-lo de
maneira eficaz e sem cair em esquerdismos. O revisionismo, o aventureirismo, o
sectarismo, o reformismo, o personalismo (ou como eu preferiria marcar no
Brasil, sebastianismo), o espontaneísmo, o imobilismo, o comodismo, o
liquidacionismo. Compreender esses termos como instrumentos indiretos da
burguesia para difundir sua ideologia sobre a classe trabalhadora e minar o
projeto revolucionário dos proletários é crucial. Para além, precisamos
compreender os próprios mecanismos diretos da burguesia e como atuam, a mídia,
as relações de trabalho, a polícia, o parlamento burguês, etc. Mas disso me
ocuparei outro dia.
Escrito por André Molinari
junho de 2019
(continua)
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ULYANOV, V. I. Propaganda e Agitação. Moscou: Edições Progresso, 1984. 226 p.
DZHUGASHVILI, I. V. O Materialismo Dialético e o Materialismo Histórico. Recife: Edições Manoel Lisboa, 2010. 33p.

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